Câmbio: é possível se planejar?

Câmbio: é possível se planejar?
Rodrigo Amato
Rodrigo M. Amato
Sócio da Mark 2 Market

Sabemos que no Brasil o regime é de taxas de câmbio flutuante. Isso as vezes nos pega desprevenidos, com a moeda brasileira se apreciando e depreciando fortemente, principalmente em relação à moeda americana, o dólar. Mas há como neutralizar os efeitos desta variação no fluxo de caixa?

A resposta é: sim, há meios para tirarmos a volatilidade do fluxo de caixa, do resultado e até do patrimônio líquido, a depender da moeda de contabilização da companhia. Hoje o mercado financeiro brasileiro tem instrumentos seguros de proteção, denominados Instrumentos de Hedge, que podem dar este efeito nas demonstrações financeiras e facilitar a gestão diária das empresas expostas à moeda estrangeira.

No setor de saúde, com um alto índice de equipamentos importados, é comum o financiamento à importação (FINIMP), uma linha de crédito provida pelos bancos para ajudar as empresas deste mercado em seu planejamento de caixa. Este tipo de financiamento é indexado à moeda estrangeira e, consequentemente, deixa a companhia exposta às variações da moeda para a data de pagamento prevista. Porém, uma simples operação de proteção chamada Termo de Moedas (ou Forward, como queiram) pode prefixar a taxa de câmbio no momento da contratação do empréstimo.

Colocando de forma mais didática, junto à contratação do FINIMP a empresa faz a compra a termo de moeda, fixando na data da contratação do empréstimo a taxa de câmbio pelo qual a sua importação será paga na data de vencimento. Isso traz previsibilidade ao fluxo de caixa e permite um melhor planejamento de caixa, controlando com maior assertividade a sua disponibilidade de recursos sem comprometer a liquidez em caso de depreciação da moeda nacional.

Há outras opções como o Swap, por exemplo. Caso a empresa não tenha a intenção de prefixar uma taxa de câmbio, mas sim indexar a sua dívida tal qual o seu caixa, é possível fazer a troca da variação cambial pela variação do CDI, indexando sinteticamente a dívida ao CDI.

Cumpre destacar que há efeitos tributários e contábeis diferentes por instrumento e que devem ser considerados na estratégia de proteção de cada empresa. Hoje, com a adoção das normas internacionais de contabilidade no Brasil, o desafio de executar uma política de proteção a riscos de mercado é equiparável à complexidade de seu controle.

O que por hora favorece as empresas, não só do setor de saúde, ainda é o baixo grau de conhecimento que as auditorias possuem em instrumentos financeiros em geral, confiando plenamente naquilo informado pelos bancos. Esta é uma prática que não deve ser seguida em absoluto, já que por diversos normativos do Banco Central os bancos são obrigados a contabilizar as operações de derivativos considerando o risco de crédito do cliente, ou seja, provisionando perdas. Ao contabilizar os valores informados pelos bancos, as empresas estão colocando os efeitos de seu próprio risco de crédito em seu resultado, em prejuízo ao acionista.

Enfim, maneiras de se proteger dos riscos de mercado existem há muito tempo e são plenamente acessíveis. A questão central é definir claramente qual o objetivo daquela proteção, medi-la como tal e garantir boa eficiência em termos de controle para que ao final da operação de proteção não se julgue a estratégia de forma isolada, mas sim considerando aquilo que se pretendia originalmente proteger e os efeitos conjuntos disso.

Artigo publicado originalmente na Revista Healthers, em março de 2015.